“Argentina campeón, videla al paredón” - Os montoneros e a Copa de 78
- Emili Beatriz Julio

- 15 de jun. de 2025
- 5 min de leitura
Olá gente! Tudo tranquilo? O texto de hoje tratará da relação entre a Copa do Mundo de 1978, na Argentina, e a resistência à ditadura que acontecia no país naquela época. Boa leitura! ☺️

Quando se fala em memória, é fundamental que nos lembremos das diversas disputas de narrativa que se constroem ao longo do tempo e, no caso da ditadura militar que se passou na Argentina entre 1976 e 1983, também chamada de Processo de Reorganização Nacional, não é diferente. Este texto se propõe demonstrar alguns exemplos dos embates entre a imprensa tradicional (aqui representada pelo Jornal Clarín) defensora do regime repressivo, e a imprensa militante (por meio da revista Evita Montonera) durante a realização da Copa do Mundo de 1978, sediada na Argentina.
Com a queda da presidente María Estela Martínez de Perón em 27 de março de 1976, uma Junta Militar assumiu o poder na Argentina. Nesse cenário, o primeiro presidente pós-golpe foi o general Jorge Rafael Videla, um dos maiores articuladores das ações golpistas do país, e é justamente a figura dele que a imprensa conservadora buscou colocar em evidência e exaltação ao longo do Mundial de 78. Videla, responsável pelo alinhamento da Argentina com a Operação Condor dos EUA - voltada para a eliminação do “comunismo” em toda a América Latina -, sentiu-se em posição de legitimidade para adotar uma política de Guerra Suja durante a ditadura: diversas liberdades individuais como o fim do direito à ampla defesa judicial foram restritas, além da execução de prisões arbitrárias, torturas e assassinatos.
Com o aumento da violência e brutalidade em todo o país, a população insatisfeita com o regime começou a se organizar e atuar de maneira mais enérgica, e é nesse contexto que os Montoneros aparecem para resistir à ditadura de Videla e propor a luta armada. Eles foram uma organização peronista de guerrilha urbana que tinha o propósito de criar um estado socialista na Argentina. Surgida na década de 1970, foi criada no contexto do exílio do ex-presidente Juan Domingo Perón e de proibição de partidos políticos, em conjunto com a eclosão de diversos outros movimentos revolucionários na América como um todo.
A Copa do Mundo de 1978 contou com um grande componente de patriotismo que exaltava o regime militar na Argentina, e acontecia com a finalidade de demonstrar ao mundo uma certa legalidade acerca do contexto político conturbado do país à época. Além disso, havia uma tentativa dos militares de utilizar a paixão do povo pelo futebol a seu favor, de maneira a incitar um sentimento geral de nacionalismo argentino. Nesse sentido, era percebida uma quase “onipresença” de Videla na imprensa argentina, que figurava como grande personalidade agregadora. O Jornal Clarín – um dos mais tradicionais da Argentina – preocupava-se em colocar o general como o grande anfitrião do torneio, como em boa parte do nº 11.585 do Clarín, no qual o jornal estampa uma declaração de Videla:
“Pidó a Dios, nuestro señor, que este evento sea realmente una contribución para afirmar la paz, esta paz que todos deseamos para todo el mundo y para todos los hombres del mundo afirmó ayer el presidente de la Nación y titular de la Junta Militar, teniente-general Jorge Rafael Videla, al inaugurar oficialmente el undécimo Campeonato Mundial de Fútbol en el remodelado y brillante estadio de River Plate. Sus palabras fueran coronadas por estupendos aplausos surgidos espontáneamente entre los 73.000 asistentes – entre los que hallaban numerosos grupos de extranjeros. El teniente general Videla estuvo presente en el estadio de River juntamente con los otros integrantes de la Junta Militar, almirante Emílio Eduardo Massera y el brigadier General Orlando Ramón Agosti. Acompañó la Junta Militar en la ocasión un nutrido contingente de autoridades nacionales y del área deportiva, así como también personalidades mundiales y funcionarios de la esfera diplomática.” (CLARÍN, n. 11.585, 02 jun. 1978, p. 2).
Este trecho do jornal Clarín demonstra claramente o objetivo principal da realização da Copa do Mundo de 78 no país: exaltar uma certa “união” nacionalista. Para isso, o futebol constituía o elemento perfeito para fomentar a imagem de uma nação feliz, harmoniosa e pacífica.
Por outro lado, o ano de 1978 foi fundamental para os Montoneros, que reconheciam na realização da Copa do Mundo no país a oportunidade perfeita para se buscar a reabertura política, reivindicar cada vez mais o reconhecimento dos pedidos populares e a destruição da Junta Militar. A imagem abaixo, retirada da vigésima primeira edição da revista revolucionária, manifesta a aspiração dos Montoneros nesse sentido:

Para a organização, o Mundial atrairia os olhos do mundo inteiro para a Argentina e assim, apesar da contínua e violenta repressão das Juntas Militares a qualquer ação individual ou coletiva considerada desviante, seria viável aumentar a difusão dos ideais da resistência sistematicamente organizada entre toda a população.
A partir daí se inicia a Ofensiva Tática “Mundial ‘78”, organizada inteiramente pelos
líderes do movimento montonero. O plano se constituía em realizar ações políticas, militares e de propaganda ao longo da realização da Copa do Mundo no país. Dessa forma, os Montoneros visavam multiplicar o caos por meio de suas ações, para assim ganhar destaque na mídia nacional e internacional e, portanto, denunciar extensivamente a sangrenta realidade vivida pelo povo argentino diariamente. Apesar disso, as operações do grupo de guerrilha foram ocultadas pela imprensa, fato que enfraqueceu a estratégia de resistência. No entanto, o lema “Argentina campeón, Videla al paredón” define muito bem o propósito dos Montoneros.
Por fim, é evidente que a paixão pelo futebol, enraizada em diversos países da América Latina, constitui um elemento fundamental para se estudar e compreender as sociedades e os mecanismos que as cercam, tais como as disputas narrativas da imprensa do país. No caso argentino, o primeiro título do torneio esportivo mais importante do mundo foi abundantemente comemorado e celebrado. No entanto, o grande triunfo da Seleção Argentina foi permeado por um contexto sangrento e repulsivo de repressão, perseguições, torturas, desaparecimentos e mortes desmedidas. Ao olhar para a Copa do Mundo de 1978 é preciso refletir acerca do Processo de Reorganização Nacional, da Junta Militar e de todos os envolvidos nesse regime brutal e opressivo. É fundamental jamais esquecer das ações dos comandantes do golpe, das vítimas desse processo e dos movimentos de resistência que foram silenciados ao longo de toda a ditadura. Nesse sentido, consequentemente o futebol se mostra profundamente importante para muito além das quatro linhas!
Emili Beatriz Julio
Referências Bibliográficas:
CLARÍN, n. 11.585, 02 jun. 1978, p. 2.
ITURRALDE, Micaela. El diario Clarín y la" campaña antiargentina": la construcción de un consenso en torno a las violaciones a los derechos humanos. 2012.
La resistencia participa en el mundial. Evita Montonera, Buenos Aires, N° 21, abril/maio, 1978.
MICIELI, Cristina; PELAZAS, Myriam. Tanatopolítica, ser nacional y guerra preventiva en la Argentina (1976-1983), a través de las revistas Evita Montonera, Estrella Federal, Extra, Carta Política y otros documentos. De Prácticas y Discursos: Cuadernos de Ciencias Sociales, v. 3, n. 3, p. 1-23, 2014.
ROLDÁN, Diego Pablo. Paradojas del Mundial Argentina 78: estilos, inversiones y rituales. 2019
VANNUCCHI, Edgardo. “Argentina campeón, Videla al Paredón!": Montoneros, la dictadura y el Mundial '78. APU. Agencia Paco Urondo, 2021. Disponível em:
Acesso em: 18 maio 2025
Créditos da imagem: Archivo / Revista Zoom: Política y Sociedad en foco



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