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PEPE MUJICA E A DITADURA MILITAR NO URUGUAI: DE TUPAMARO A PRESIDENTE

  • Foto do escritor: Sabrina Seron
    Sabrina Seron
  • 13 de jun. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 16 de jun. de 2025

Oi pessoal! Esperamos que estejam bem. Hoje nosso texto será sobre o querido Pepe Mujica. Esperamos que gostem 😊


No dia 13 de maio de 2025 o Uruguai e o mundo se despediram de José Alberto Mujica Cordano, importante líder da esquerda latino-americana, que deixou entre muitos legados sua palavra e seu modo de viver. 

A trajetória de Pepe Mujica está atrelada à história política recente do Uruguai, em especial, a do período da ditadura civil-militar que assolou o país entre 1973 e 1985. De origem humilde, nasceu em uma família de pequenos agricultores em Montevidéu no ano de 1935. Aos nove anos de idade ficou órfão de pai, e desde muito cedo se tornou agricultor e revendia as flores produzidas pela sua família na região de Montevidéu. Em sua juventude foi atraído pelas lutas sociais com tendências socialistas.  

O envolvimento político de Mujica teve início nos anos 1960, quando se uniu ao Movimiento de Liberación Nacional – Tupamaros (MLN-T), organização guerrilheira de esquerda que realizava ações armadas como forma de enfrentar as desigualdades sociais do país e contestar o sistema bipartidário - dominado pelos Partidos Nacional e Colorado e, portanto, considerado excludente. O Movimento surgiu no pré-golpe e foi suprimido durante a ditadura. 

A ditadura uruguaia foi instaurada em 27 de junho de 1973, com o golpe de Estado liderado por Juan María Bordaberry, que dissolveu o parlamento e suprimiu liberdades civis. O regime foi marcado pela censura, repressão, perseguições e torturas. Mujica, assim como outros militantes tupamaros, foi capturado e permaneceu treze anos preso em condições subumanas, sem acesso a livros ou a qualquer tipo de interação social por longos períodos.  Nesse período, Mujica passou mais de dois anos preso em um poço seco. A tortura psicológica fazia parte da estratégia de destruição do inimigo político. Mujica relembra em uma entrevista à jornalista María Esther Gilio,“descobri que as formigas gritam. A gente põe no ouvido e ouve um barulhinho”, pode-se entender essa frase como uma metáfora que sintetiza o delírio provocado pelo isolamento extremo. 

Com a redemocratização em 1985, Mujica retomou sua atuação política, agora pela via institucional. Filiou-se à Frente Ampla (FA) por meio do Movimiento de Participación Popular (MPP) e foi eleito deputado em 1994, senador em 1999 e presidente da república em 2009. Sua eleição representou o ápice de uma trajetória incomum e foi também um marco simbólico da reconciliação entre passado e presente. Sua chegada ao poder, representou uma ruptura com a tradição bipartidária e deu forças à esquerda no país.

O legado de Mujica ultrapassa sua história pessoal de sofrimento e resistência. Durante seu mandato (2010–2015), implementou políticas progressistas de grande impacto social e simbólico, como a regulamentação da maconha, a descriminalização do aborto e o casamento igualitário, medidas que desafiaram paradigmas e colocaram o Uruguai na vanguarda regional dos direitos civis. Além disso, seu governo abriu espaço para o fortalecimento dos movimentos sociais e para a ampliação do debate sobre justiça de transição, ainda que os obstáculos institucionais permanecessem. 

As políticas de memória no Uruguai foram tímidas no início da redemocratização, e a chamada “Lei de Caducidade” de 1986 dificultou por décadas o julgamento de militares acusados de violações aos direitos humanos. Contudo, houve avanços significativos a partir dos anos 2000, como a criação da Comissão para a Paz (COMPAZ), o Museu da Memória (MUME) e a promulgação da Lei de Reparações de 2009. Essas iniciativas demonstram a importância de reconhecer os traumas do passado e seus sobreviventes. 

Em  seu mandato, Mujica  emitiu  um  decreto  que reverteu  decisões  de  presidentes anteriores  sobre  quais  casos  de  supostas  violações  de  direitos  humanos  poderiam  ser investigados. Possibilitando reabrir  aproximadamente  80  casos. Foram  apresentadas  denúncias  em  nome  de  mais  de  150  sobreviventes  de  violações  de  direitos  humanos.

Mujica é um representante importante da luta pela memória e justiça no Uruguai. Sua figura íntegra, sua recusa aos luxos do cargo presidencial e sua postura ética diante das responsabilidades públicas contribuíram para consolidar um imaginário político alternativo, em que a liderança é medida pela coerência entre discurso e prática. 

Ao olhar para a história recente do Uruguai, é impossível ignorar o papel de José Mujica como testemunha e protagonista de um processo profundo de transformação política e cultural. Sua resistência durante a ditadura, sua ascensão política e suas contribuições para a construção de um país mais justo fazem dele uma figura emblemática da memória democrática uruguaia. 

Terminamos este texto com um trecho de sua entrevista para a jornalista Maria Esther Gilio, publicada em 2010, onde ele expressa a preocupação com o futuro e a formação de sucessores nas lutas políticas: 


[...] Eu estava começando a fazer outra pergunta quando ele me interrompeu com a mão. "Algumas coisas só vão se consertar quando todos morrermos. Tempo..." 

O que acontece com o tempo?

— É o que cura tudo. Só o tempo cura. Porque as pessoas que têm memória e que experimentaram dor não conseguem se livrar de suas memórias. Foi o que aconteceu em todas as guerras. Só o tempo lava e permite que você vire a página. É feio dizer isso, muito feio. Mas eu sempre pensei assim.

— Você pensou que queria viver olhando para o futuro.

— Sim, para mim a vida é sobre o futuro, o que não significa que você não deva ter memória. Mas não se pode permanecer enterrado sob a memória. Devemos afirmar o futuro. Incutir nas pessoas, se isso for possível em algum sentido, a capacidade de curar e seguir em frente. E essa é a maior mensagem que a natureza nos dá. Você vê aquelas ervas daninhas ali a três ou quatro metros da janela? Olhe para elas, olhe para elas com atenção. Elas estão com pressa.

Por que a pressa?

— Porque a época de semear se aproxima, e eles têm essa responsabilidade com suas espécies, de germinar novamente na próxima primavera. Assim é a natureza. A coisa mais grandiosa que existe, um sinal vivo de amor. Então, hoje nossa grande preocupação são aqueles que ficarão para hastear as bandeiras. É por isso que devemos também combater essa ideia de triunfo. Triunfo? Não, não. É apenas um trampolim. [...]


(Tradução livre - “De Tupamaro à Presidente” p.60-61 - Maria Esther Gilio)  



Indicações:  


Quer conhecer um pouco mais sobre a vida, trajetória e ideias do importante líder Pepe Mujica? Fica aqui a nossa indicação:

Documentário: El Pepe una vida Suprema – Netflix 



Neste documentário, é possível acompanhar uma adorável conversa com o Pepe Mujica em sua casa, abordando vários momentos do seu passado como ex-guerrilheiro, além de outros episódios de sua vida, contando suas indignações e reflexões sobre a vida e a política. 


Sabrina Seron



Referências bibliográficas: 


CARDOSO, Deivid Mendonça; GALLO, Carlos Artur. Políticas de memória: dados parciais sobre a ditadura no Uruguai. Universidade Federal de Pelotas. Disponível em: PDF fornecido pela usuária. Acesso em: 19 maio 2025.


FAGUNDES, Pedro Ernesto. O Uruguai e o Mercosul: novos desafios de José Mojica. Meridiano 47, Brasília, n. 114, p. 51–53, jan. 2010. Disponível em: PDF fornecido pela usuária. Acesso em: 19 maio 2025.


FERRARI, Dércio Fernando Moraes. A ascensão política de José Mujica no Uruguai: de guerrilheiro tupamaro a presidente da república. 2016. 110 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Toledo, 2016.


FERRARI, Dércio Fernando Moraes. José Mujica: “o presidente tupamaro” – da luta armada às vias democráticas. Revista Alamedas, v. 2, n. 1, p. 19–21, 2014.


GILIO, María Esther. Pepe Mujica: de tupamaro a presidente. 2. ed. Buenos Aires: Capital Intelectual, 2010.


GONZÁLEZ, Ana Maria Sosa; FERREIRA, Maria Leticia Mazzucchi. Entre la memoria y la historia: políticas públicas en torno al pasado reciente en Uruguay y Brasil. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, v. 50, 2014.


MOREIRA, Carlos; LAJTMAN, Tamara. Uruguai: os movimentos sociais durante o governo de José Mujica (2010–2015). Plural – Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da USP, São Paulo, v. 22, n. 1, p. 66–82, 2015.


 
 
 

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