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Políticas de Memória - Uruguai

  • Foto do escritor: Sabrina Seron
    Sabrina Seron
  • 16 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem. Hoje nosso texto será sobre algumas políticas de memória do Uruguai. Boa leitura!



Acervo pessoal: exposição “Marcha do silêncio” - Museo de la Memoria (2023).
Acervo pessoal: exposição “Marcha do silêncio” - Museo de la Memoria (2023).

As ditaduras militares que assolaram a América Latina entre as décadas de 1960 e 1980 deixaram cicatrizes profundas nas sociedades afetadas. No Uruguai, esse passado doloroso permanece vivo na memória coletiva, sustentado por uma série de políticas públicas e iniciativas da sociedade civil que visam garantir que os crimes cometidos durante o regime autoritário não sejam esquecidos. Entre as ações mais significativas estão o Museu de la Memoria (MUME), o projeto Marcas de la Memoria e a emblemática Marcha del Silêncio


O que são políticas de memória? 


Políticas de memória são o conjunto de ações promovidas por diferentes atores — especialmente o Estado, mas também por organizações sociais — com o objetivo de preservar, promover e institucionalizar a lembrança de eventos traumáticos do passado. Essas políticas se expressam em diversas formas: leis, datas comemorativas, memoriais, programas educacionais e exposições públicas. Trata-se de um esforço consciente de organizar a memória coletiva para que reconheçam os crimes cometidos, promovam a justiça e garantam a não repetição. Elas são, portanto, ferramentas fundamentais para a defesa dos direitos humanos e da democracia. 


Museo de la Memoria (MUME) 


Inaugurado em 2007, o Centro Cultural e Museu da Memória (MUME) é um marco das políticas de memória no Uruguai. Instalado na antiga casa de campo do ex-presidente Máximo Santos (1882-1886), o museu surgiu de uma articulação entre o Estado e diversas organizações da sociedade civil, como Mães e Familiares de Detidos Desaparecidos, Crysol (associação de ex-presos políticos), la Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación, de la Universidad de la República, entre outros.

O MUME é definido como um espaço dedicado a resgatar a memória do terrorismo de Estado e das lutas populares contra a ditadura. Ele abriga exposições permanentes e temporárias, oficinas, colóquios e ações educativas que envolvem escolas, universidades, comunidades e instituições de direitos humanos. Seu caráter pedagógico é central: o museu busca transmitir às novas gerações um passado que elas não viveram, mas cujas consequências ainda reverberam. 

Acervo pessoal: Museo de la Memoria (2023).
Acervo pessoal: Museo de la Memoria (2023).

Marcas da Memória 


O projeto Marcas da Memória, promovido pela Associação pela Memória da Resistência 1973-1985, é um exemplo emblemático de patrimonialização da memória no espaço urbano. Aprovado em 2010, o projeto visa instalar marcadores em locais onde ocorreram ações de resistência ou repressão durante a ditadura uruguaia. São placas e estruturas simbólicas que atuam como lembretes silenciosos da violência de Estado e da luta pela liberdade. Iniciou com 15 locais, crescendo posteriormente, chegando a 29 no ano de 2020. A iniciativa chegou à vários bairros de Montevidéu e a cidades do interior.

Podemos citar como exemplo, a placa que foi colocada em homenagem ao professor Júlio Castro, no local onde ele foi levado após ser sequestrado em 1977, aos 68 anos. Julio Castro foi um destacado mestre, jornalista e militante político uruguaio. Fundador dos jornais El Nacional, Acción e do influente semanário Marcha, atuou contra a ditadura de Terra e participou da fundação da Frente Ampla em 1971. Defensor da educação como instrumento de transformação social, contribuiu com projetos pedagógicos no Uruguai e em outros países da América Latina. Foi sequestrado e assassinado sob tortura pela ditadura em 1977, permanecendo desaparecido até 2011. Seu legado é lembrado em escolas, monumentos e no Dia dos Detidos Desaparecidos da Educação, que ocorre em 1.º de agosto.


Imagem 1: Placa em homenagem ao professor Júlio Castro.
Imagem 1: Placa em homenagem ao professor Júlio Castro.

A Marcha do Silêncio 


Desde 1996, todos os 20 de maio, as ruas do Uruguai são tomadas por uma multidão que marcha em silêncio absoluto, sem bandeiras ou slogans partidários. A Marcha do Silêncio teve sua origem na dor dos familiares dos desaparecidos, e a data escolhida está relacionada ao aniversário do assassinato dos deputados uruguaios Zelmar Michelini e Héctor Gutiérrez Ruiz em Buenos Aires, durante a Operação Condor. 

O silêncio da marcha é ao mesmo tempo denúncia e homenagem. Caminha-se por cerca de vinte quarteirões em Montevidéu, partindo das ruas Rivera e Jackson até a Praça Cagancha, marco zero da cidade e local tradicional de resistência. Durante o percurso, os nomes dos desaparecidos são pronunciados um a um, ao que a multidão responde com um sonoro “presente”, tornando-se um grito coletivo por justiça. 

A marcha, que começou como um gesto de poucos, tornou-se uma das maiores manifestações populares do país. Com o tempo, ultrapassou os limites da capital, sendo reproduzida em outras cidades e até em outros países. Ela institucionalizou-se como uma política pública de memória, acolhida pela sociedade uruguaia como um todo. 

A participação de jovens nas últimas marchas tem sido algo fundamental. Nas últimas edições, jovens estudantes passaram a carregar os retratos dos desaparecidos, mesmo sem laços familiares diretos. A memória se transmite, ressignifica e fortalece como um patrimônio coletivo. Como expressa uma das organizadoras, segundo a historiadora Ana Maria Sosa, “Nosso silêncio é estrondoso, ensurdecedor, que não pode nem deve ser ocultado”. 


Imagem 2:  Marcha do Silêncio (2019).
Imagem 2:  Marcha do Silêncio (2019).

A memória como dever democrático 


As políticas de memória no Uruguai demonstram que lembrar é um gesto profundamente político e democrático. O MUME, as Marcas da Memória e a Marcha do Silêncio são expressões materiais e simbólicas do compromisso da sociedade uruguaia com os direitos humanos, a justiça e a verdade. 

Num contexto em que o esquecimento pode ser conveniente para alguns, essas iniciativas desafiam o silêncio cúmplice e reivindicam a dignidade das vítimas. A memória, nestes casos, é resistência e é também futuro — porque sem memória, não há garantia de que a história mais sombria não volte a se repetir. 


 

Referências Bibliográficas


BERMUDEZ, Iara ; GARCIA, Waldemar. Marcas de la memoria : monumentos, placas y nomenclátor : homenaje a la resistencia de la dictadura (1973-1985). Montevideo, 2020.


GONZÁLEZ, Ana Maria Sosa; FERREIRA, Maria Leticia Mazzucchi. Entre la memoria y la historia: políticas públicas en torno al pasado reciente en Uruguay y Brasil. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, v. 50, 2014.


SOSA, Ana María. Memorias Sensibles, Democracias y Derechos Humanos: Testimonios sobre las Marchas dek Silencio em Uruguay. Revista de Direitos Fundamentais & Democracia, v. 24, n. 1, 2019.




 
 
 

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